Dia Mundial do AVC reforça a prevenção, os avanços no tratamento e a importância do socorro imediato
Dificuldade repentina para falar, perda de força em um lado do corpo e um sorriso assimétrico. Esses são sinais de alerta de um possível acidente vascular cerebral (AVC), conhecido popularmente como derrame, e exigem atendimento imediato. Reconhecer os sintomas pode fazer a diferença entre uma recuperação sem sequelas e consequências que comprometem a qualidade de vida.
O AVC está entre as principais causas de morte no Brasil e de incapacidade no mundo. Segundo a Organização Mundial do AVC, uma em cada quatro pessoas com mais de 25 anos terá um episódio ao longo da vida. No Brasil, os registros de óbito contabilizaram 89.490 mortes pela doença em 2025, conforme levantamento divulgado pela Sociedade Brasileira de AVC.
Esse cenário reforça a importância do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro, dedicado à conscientização sobre a doença e às formas de prevenção e tratamento.
“A data é uma oportunidade para levar essa conversa às famílias. Conhecer os sintomas ajuda a buscar socorro, mas o cuidado começa antes, com atenção à pressão alta, ao diabetes e a outros fatores de risco. São problemas que precisam de acompanhamento mesmo quando a pessoa se sente bem”, explica o neurologista Dr. William Almeida, do Grupo Santa Saúde.
De acordo com o especialista, existem dois tipos principais de AVC: o isquêmico, provocado pela obstrução de um vaso sanguíneo, e o hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso e pelo consequente sangramento no cérebro. Ambos exigem atendimento de emergência, mas os tratamentos são diferentes.
Sinais de alerta
Outros sinais de alerta incluem alterações repentinas da visão, vertigem , perda de equilíbrio e dor de cabeça súbita e muito forte.
A rapidez na identificação desses sintomas é decisiva. Em um AVC isquêmico causado pela obstrução de uma grande artéria, estima-se que o cérebro possa perder cerca de dois milhões de neurônios por minuto sem tratamento.
“Costumamos dizer que tempo é cérebro. A cada minuto que passa, aumentam os riscos de lesões e sequelas irreversíveis. O reconhecimento dos sintomas e o atendimento em um centro preparado podem mudar completamente o futuro desse paciente”, ressalta o Dr. William.
O desaparecimento dos sintomas também exige atenção. Segundo o especialista, manifestações passageiras podem indicar um ataque isquêmico transitório (AIT), provocado por uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo no cérebro. O episódio é um sinal de alerta para o risco de AVC e requer avaliação imediata, mesmo após a melhora.
Nesses casos, a investigação permite identificar a causa e orientar medidas preventivas, como o controle dos fatores de risco e o uso de medicamentos, quando indicados.
Avanços no tratamento
Nos últimos anos, a medicina avançou especialmente no tratamento do AVC isquêmico. Entre as opções para determinados pacientes estão a trombólise, que utiliza medicamentos para dissolver o coágulo responsável pela obstrução, e a trombectomia mecânica, realizada por meio de cateteres para retirar o coágulo e restabelecer a circulação sanguínea.
O especialista explica que esses procedimentos precisam ser realizados dentro de períodos específicos. A trombólise intravenosa com alteplase é geralmente indicada até quatro horas e meia após o início dos sintomas, enquanto a trombectomia mecânica pode ser realizada em até oito horas, com base nos resultados dos exames de tomografia de crânio simples e angiotomografia dos vasos cervicais e intracranianos, conforme o protocolo e a avaliação médica. Em pacientes selecionados, exames especializados permitem ampliar essa janela de tratamento, que pode chegar a 24 horas.
A definição da conduta depende dos exames de imagem e da avaliação de uma equipe especializada. Por isso, a estrutura hospitalar e a agilidade no diagnóstico são fundamentais para aproveitar o tempo disponível para cada intervenção.
Recuperação
As consequências do AVC podem comprometer a capacidade de trabalhar, realizar atividades cotidianas e manter a independência, afetando também a rotina familiar. O tratamento adequado e iniciado rapidamente pode aumentar as chances de recuperação e de retorno a essas atividades, conforme a gravidade e as características de cada caso.
Após a fase inicial, o cuidado continua com acompanhamento médico e, quando necessário, reabilitação, que pode envolver fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. O controle dos fatores de risco também é essencial para reduzir a possibilidade de um novo episódio.
O neurologista observa, porém, que o acesso à reabilitação varia entre os pacientes. Segundo ele, a continuidade desse cuidado depende dos recursos e tratamentos disponíveis, da frequência das sessões e do envolvimento do paciente no processo de recuperação. A frequência e a intensidade das atividades devem ser ajustadas às necessidades e às condições de cada pessoa.
Prevenção
Hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade, sedentarismo e consumo excessivo de álcool estão entre os fatores de risco para o AVC. Algumas alterações do ritmo cardíaco, como a fibrilação atrial, também podem favorecer a formação de coágulos.
Embora seja mais frequente com o avanço da idade, o AVC pode atingir pessoas jovens, e o histórico familiar e a ocorrência de um episódio anterior merecem atenção na avaliação médica.
A prevenção inclui controlar a pressão, acompanhar a glicemia e o colesterol, não fumar, reduzir o excesso de sal e praticar atividade física de acordo com as condições de saúde, além de seguir o tratamento prescrito. Segundo o Dr. William, as avaliações médicas periódicas ajudam a identificar fatores de risco e a definir os cuidados necessários para reduzir a chance de um AVC.
“Não basta medir a pressão uma vez ou tomar o medicamento apenas quando aparece algum desconforto. O acompanhamento regular permite identificar riscos e ajustar os cuidados às necessidades de cada pessoa”, afirma o neurologista.